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Permita-me avisar ao leitor mais desatento: Eduardo Mano não está lançando um disco novo.

O compositor carioca de 35 anos tem talhado a mesma obra desde 2008, quando lançou na internet seu primeiro EP – o ainda rudimentar “Canções para grupos pequenos”. A tecla surrada do piano dá a mesma nota há seis anos, mas a melodia soa cada vez mais urgente e necessária: voltemos às velhas verdades, voltemos ao Evangelho, voltemos à cruz. Os trabalhos se complementam, reverberando o mesmo axioma.

Em seu mais recente trabalho, “Voz como o som de muitas águas”, Mano repete as letras centradas na essência do Cristianismo que o fizeram respeitado na internet – e conhecido por meio do documentário “Ministérios Fracassados”. Sacrifício, cruz, salvação, perdão e graça são palavras recorrentes em suas canções, mas acredite: elas continuam surpreendendo os ouvintes mais assíduos – e representarão grata descoberta àqueles mal habituados ao antropocentrismo musical das igrejas.

Ao invés de buscar novos sintetizadores, loops e efeitos de computador, Mano se guia pelo retrovisor. Tal como McLuhan previu ao dizer que “o meio é a mensagem”, o músico transforma timbres e arranjos para soar cada vez mais velho. Não bastasse apregoar em seu discurso a mensagem de redenção, o carioca parece almejar que toda sua obra soe como uma grande oração da igreja primitiva, falando por si só.

“Tua Graça, Senhor”, por exemplo, nos faz imaginar Mano em uma catedral neogótica, acompanhado de pianos e órgãos – estes dois últimos, segundo o músico confidencia, foram gravados usando o próprio teclado do computador (!). O disco revela também a maturidade do produtor Eduardo Mano. Ciente das próprias limitações – supridas pela banda apenas em dois álbuns –, o cantor busca na simplicidade a eficiência necessária para transmitir suas verdades.

Estão ali os vocais trêmulos, quase desafinados, o violão por vezes vacilante, mas também o coração firme nas certezas da fé que defende e o amor pelo que canta. A regravação de “Raízes”, desta vez registrada no arranjo original em que foi composta, chega a “constranger” o ouvinte. É como se sentássemos ali, ao lado do carioca, invadindo um devocional noturno e acenando com a cabeça ao concordarmos com a oração traduzida em verso e melodia.

A reflexão pessoal de “Melhor Futuro” traz à tona uma verve cronista do compositor. Ao aplicar juízo sobre si em mensagem direta, conduzida apenas por violões, sem distração de qualquer outro instrumento, Mano nos convida a fazer o mesmo. Do silêncio nasce a reflexão, sem que fosse preciso apontar o dedo para o ouvinte. Na transformação do meio, valoriza-se a mensagem.

O disco guarda outras boas surpresas, como “Meu Desejo”, que parece retirada do cancioneiro folk americano, e “Glória no Porvir”, composta no dia da morte da avó de Mano e inspirada nos hinos do Cantor Cristão. O trabalho se encerra com a clássica “Mensagem da Cruz”, reforçando o conceito de que o compositor não caminha no mesmo ritmo e direção da rasa música gospel brasileira.

Voltando no tempo a cada trabalho, Mano aponta em direção ao passado, convidando seus ouvintes a rumarem em direção ao Princípio – e, ao mesmo tempo, à Eternidade.